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Poema: Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

SENTIMENTO DO MUNDO

Carlos Drummond de Andrade



Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra

e era necessário

trazer fogo e alimento.

Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço

que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,

eu ficarei sozinho

desfiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microscopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados

ao amanhecer

esse amanhecer

mais noite que a noite.


 

Este poema faz parte das semanas de poesia do Coluna Erudita Blog.

Toda semana escolhemos um autor e publicamos um dos seus poemas diariamente de domingo a sábado.

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